Fanfics
Para quem tem o hobby de escrever e sempre acaba incluindo o universo de RE em seus textos, de poesias e crônicas a novelizações.
For those who have the writing hobby and always ends up including the RE universe in your texts, from poetry and stories to novelizations.

 

[COMPLETA] Songfic: "Mea Culpa" (Chris Redfield)
Avaliação do Usuário: / 8
PiorMelhor 
Escrito por Red Queen   

 

 

"Saw the world turning in my sheets and once again I cannot sleep. Walk out the door and up the street; look at the stars beneath my feet. Remember rights that I did wrong, so here I go. Hello, hello. There is no place I cannot go. My mind is muddy but my heart is heavy. Does it show? I lose the track that loses me, so here I go..."

 

Chris não conseguia dormir, por mais que tentasse. Olhou o relógio e viu que eram 5 horas da manhã. Imaginou o que poderia já estar aberto a esta hora, tão cedo... A esta hora, as pessoas estavam dormindo, sonhando, ou batendo no despertador soando para poderem dormir mais cinco minutinhos. Mas ele, não. Revirava e se enrolava cada vez mais no lençol, inquieto em sua cama, no quarto silencioso. Lá fora, o barulho dos carros já começava, mas ali dentro, o silêncio imperava como em um túmulo vazio.

 

Túmulo vazio...

 

Ele finalmente se sentou na cama, pegando o porta-retratos que estava na cabeceira da cama. Ali estava a foto do seu antigo esquadrão, os S.T.A.R.S.. Parecia ter sido tirada há um século, quando na verdade não fazia tanto tempo assim. Dez anos, talvez? Nestes dez anos, sentia que havia envelhecido pelo menos vinte a mais. Seu corpo doía, as cicatrizes de suas missões falavam por si só, mas a cicatriz que mais doía era invisível. Ele deslizou o dedo pela imagem feminina na foto, Jill Valentine, sua parceira morta em ofício.

 

Por quê? Por que ela? Ele estava a alguns segundos da morte apenas, nas mãos de Wesker. Se ela não tivesse interferido, ele estaria morto, mas ela ainda estaria viva. Chris deixou o porta-retratos cair no chão, o vidro espatifando aos seus pés.

 

Levantou-se, um pouco tonto. Foi ao banheiro e se olhou no espelho, mais uma vez os olhos vermelhos, os malditos olhos vermelhos querendo lacrimejar. Ele respirou fundo, vestindo a jaqueta que estava pendurada na porta, as chaves em uma tigela e saindo. Em sua mente, as missões dos S.T.A.R.S. e da B.S.A.A. vinham como um turbilhão de lembranças emaranhadas, enquanto andava sem rumo pelo quarteirão. Estava tudo fechado ainda.

 

 

"And so I sent some men to fight, and one came back at dead of night. Said he'd seen my enemy. Said he looked just like me. So I set out to cut myself and here I go."

 

Lembrou-se de seus amigos mortos, de quantas pessoas enviara a missões e quantas o acompanharam. Quantas pessoas haviam morrido por sua culpa? O quão diferente ele era agora do Wesker, um psicopata frio e sem escrúpulos, que matava sem piedade? Por que ele tinha que levar a Jill com ele naquela noite? Teve vontade de cometer suicídio por diversas vezes, a culpa era maior do que podia suportar, era o maior peso que carregara em sua vida, não apenas a morte de seus amigos, mas a morte da pessoa que o acompanhara por anos. Era como se parte dele tivesse morrido com Jill.

 

Havia uma igreja aberta, o único local cujas portas escancaradas pareciam estar dispostas a recebê-lo. Será que ali ele conseguiria se sentir mais perto de Jill, nem que fosse por um instante? Chris entrou, sentando-se na última fileira, próxima à saída. Ajoelhou, finalmente se entregando às lágrimas.

 

 

"I'm not calling for a second chance, I'm screaming at the top of my voice. Give me reason but don't give me choice. 'Cause I'll just make the same mistake again."

 

Jill... Por quê? Uma vida toda pela frente. Lembrou-se de seu belo sorriso, seus olhos grandes e cheios de vida. Sua voz suave e confortante, que muitas vezes o acalmaram quando ele mais precisava. Quem faria isto por ele hoje? Estava sozinho, e era melhor assim. Ninguém mais precisava morrer por sua culpa. Tudo o que ele tocava virava pó.

 

Algumas senhoras entraram, reparando em Chris, que chorava sem parar. Era a primeira vez, após a morte da Jill um ano atrás, que chorava. Foram lágrimas guardadas durante um maldito ano, que se arrastara em dias, que se transformaram em semanas, que se transformaram em meses. E ali estava ele, ajoelhado em um banco de igreja, rezando e chorando por causa de sua companheira morta. Jill havia se sacrificado por ele. Teria ele feito a mesma coisa? Ou teria hesitado? Ela estava morta quando ele deveria estar, era para ele estar naquele caixão a sete palmos do solo.

 

Um túmulo vazio ainda era pior. Nunca teve a chance de se despedir de sua companheira. Nunca teve a chance de pegar em sua mão pela última vez e agradecer por tudo, simplesmente tudo. Não havia palavras suficientes no dicionário para dizer tudo o que ela representava até hoje para ele. Além de sua companheira por anos, ela era sua melhor amiga, seu porto seguro. Um sorriso de Jill em um dia ruim fazia todas as nuvens desaparecerem do céu, e agora o único sorriso de Jill estava congelado para sempre no tempo naquela foto dos S.T.A.R.S., despedaçada no chão de seu apartamento.

 

Ele nunca mais ouviria sua voz suave, nunca mais lhe daria bom dia, nunca mais poderia ligar para ela no meio da noite para conversar futilidades. Nunca mais iriam tomar uma cerveja no sofá da sala assistindo filmes de ação. Nunca mais iriam relembrar juntos tudo o que passaram. Como seguir sem ela? E então, chorou mais, chegando a soluçar, os soluços ecoando no fundo da igreja, mas ele não se importava.

 

 

"I'm not calling for a second chance, I'm screaming at the top of my voice. Give me reason but don't give me choice. 'Cause I'll just make the same mistake again."

 

Estava lavando a alma. Estava finalmente se despedindo de sua companheira. Ela havia partido e tanto havia ficado por dizer... A vida era um nada, um dia ele tinha Jill ao seu lado, e agora estava ajoelhado em uma igreja, chorando sua morte tão repentina. Será que havia algo após a morte? Será que ele veria Jill novamente algum dia? Seria a hora perfeita para se apegar a esta crença, para que seu coração se acalmasse um pouco?

 

Chris começou a sentir seus joelhos ardendo, e então decidiu que era hora de ir embora, deixar aquelas lágrimas ali e sair sem olhar para trás. De volta ao seu apartamento, sentou-se novamente na beira da cama, sem notar que estava pisando nos cacos de vidro do porta-retrato arrebentado. Desistira de tentar dormir, apenas fechou seus olhos, deitado na cama.

 

"So while I'm turning in my sheets. And once again, I cannot sleep. Walk out the door and up the street. Look at the stars. Look at the stars, falling down..."

 

Diziam a ele que o luto tinha algumas fases. Já havia passado por todas elas, desde o choque e a negação até a agressividade e retomada de suas atividades. Mas estava ainda preso na culpa, desesperadamente preso a ela, sem ver possibilidades de sair daquele ciclo vicioso de culpa. Percebeu então que não queria sair, na verdade, que seu lugar era ali. Ela havia se sacrificado por ele, e nada poderia mudar isto. Não havia motivo para tentar mudar o que é imutável, esta era a sua condição a partir de agora.

 

"And I wonder, where did I go wrong?"