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Matéria Especial: "A Ciência dos Chronicles"

 

Umbrella Chronicles e Darkside Chronicles têm um único objetivo: recontar fatos passados da série, sob o ponto de vista de um determinado personagem. No caso de Umbrella Chronicles, o narrador da história é o vilão megalomaníaco Albert Wesker, e no caso de Darkside Chronicles, o narrador é o talentoso agente Leon S. Kennedy. Este texto visa explicar, de forma coesa e de fácil entendimento, a "ciência" por trás destes dois títulos, que foram altamente criticados antes e depois de seus lançamentos.

 


 

Antes de mergulharmos na história de cada um dos títulos em questão, é importante lembrarmos como funciona este formato de jogabilidade. Ambos são on-rails, os famosos jogos em trilhos: em primeira pessoa, você pode, no máximo, movimentar a visão do personagem para os lados, para cima e para baixo, mas não pode alterar o caminho que eles fazem. Sendo o jogo em primeira pessoa, tem-se a perspectiva de ver pelos olhos do personagem, como se você fosse ele, como se tudo aquilo que você está observando fosse, na verdade, uma forma de vivenciar aquele momento. Quando nos lembramos de um fato passado, como é feita esta lembrança? Você consegue se ver de fora, lembrar a expressão que fez, como seus olhos se arregalaram ou se apertaram, como ficou pálido ou corado? Não, pois aquela é uma lembrança gravada a partir de seus olhos, como se eles fossem duas câmeras captando aquele momento passado para guardar em um arquivo dentro de sua mente. Nos Chronicles da série, a perspectiva é a mesma: você é o personagem, você está vendo o que ele viu, sentindo o que ele sentiu, e por se tratar de uma revisitação a uma lembrança, não se pode mudar os fatos e nem a ordem em que aconteceram.


O ponto mais criticado nos Chronicles é a quantidade de elementos alterados nestas lembranças. Por exemplo, em Resident Evil 0, Rebecca e Billy não se conheceram daquele forma, Billy não tentou salvar Rebecca de um primeiro zumbi lhe dando um chute e tampouco enfrentaram juntos o Escorpião dentro do trem, só para enumerar algumas diferenças que aparecem no cenário referente a Resident Evil 0 no primeiro título Chronicle da série. Precisamos lembrar que o jogo inteiro, o Resident Evil 0 completo para Gamecube, é sob o ponto de vista dos dois protagonistas, Rebecca Chambers e Billy Coen. No caso do resumo em Umbrella Chronicles, quem está contando a história é Albert Wesker, e ele conta esta história para poder encaixar as lacunas do que provavelmente os dois heróis estavam fazendo enquanto ele fazia seus próprios planos pelo Centro de Treinamento da Umbrella, onde se passa a maior parte do jogo. Wesker não estava com Billy e Rebecca quando os eventos ocorreram, tampouco ouviu a história de um deles. Que base ele teria, então, para contar a história? Em Resident Evil 0, ele viu algumas imagens dos mocinhos por câmeras de vigilância espalhadas pelo complexo, e pode ter sido através disto, de suas memórias e de sua mente tentando preencher lacunas que ele contou a história daquela forma.

Em Umbrella Chronicles, a maior parte dos acontecimentos é narrada para contar outros acontecimentos que ocorreram paralelamente com o narrador. Albert Wesker conta fatos ocorridos com outras pessoas para que ele possa encaixar os fatos que ocorreram com ele dentro desta linha do tempo. Um fato completa o outro, se Rebecca Chambers e Billy Coen faziam uma determinada ação em um local, esta ação se refletiria na ação de Albert Wesker em um outro lugar, pouco antes ou pouco depois. Uma coisa leva à outra, e é por isso que ele reconta eventos vivenciados por outras pessoas, para poder chegar ao ponto onde sua participação se inicia ou termina, para contar a história completa, mesmo que haja algumas modificações. O importante, no final das contas, é o resultado geral ou, como aprendemos na escola, a ordem dos fatores não influencia no resultado final.

Vamos agora falar sobre eventos onde Wesker teria participado junto com os outros personagens. Em Resident Evil, Jill e Chris andam separadamente pela mansão, e a porta de entrada da casa não está trancada, eles só não a abrem porque é perigoso demais sair, já que a floresta está infestada de cães em decomposição. Já em Umbrella Chronicles, tudo mudou: Jill e Chris andam juntos pela mansão, a porta da frente está trancada (e foi trancada por Albert Wesker, o narrador dos eventos) e o que é pior, Albert Wesker participa ativamente desta experiência, onde não poderia haver desculpas para tantas mudanças na história. Neste caso, o vilão reconta uma memória onde ele faz parte das pessoas envolvidas, porém, precisamos nos lembrar que Umbrella Chronicles conta fatos de 1998 a 2003, ou seja, há uma passagem de cinco anos de quando ocorreram os eventos até quando eles foram recontados. A memória se modifica com o tempo, partes se apagam e, automaticamente, seguindo uma lógica de acordo com os fatos e pessoas envolvidas, vamos criando elementos, muitas vezes diferentes do que os que realmente ocorreram, para que possamos preencher as lacunas que ficaram. No caso do episódio da mansão, que se passa em 1998, Albert Wesker reconta o essencial: o tempo, que é 25 de Julho de 1998, e o espaço em que se passa a lembrança, que é a floresta e as diversas partes da assustadora mansão; os mocinhos Jill e Chris, que eram protagonistas do primeiro jogo, andando juntos pela mansão e descobrindo as verdades a respeito daquele local, das mortes bizarras que vinham assustando a população de Raccoon e da Umbrella; e o vilão, que é o narrador, e como ele sobreviveu à explosão da mansão.

Há razões para que outras pessoas e fatos tenham sido omitidos e modificados. Possivelmente, os outros elementos (pessoas e acontecimentos) não fariam diferença no resultado final, cujo objetivo era o de ser um "resumo da ópera". Outra explicação seria a de que ele quis apresentar uma versão diferenciada dos fatos propositalmente. Uma história tem sempre vários lados, mas, em Umbrella Chronicles, temos só o de Albert Wesker. O narrador de um evento onde ele é participante ativo, na maioria das vezes, apresenta uma versão tendenciosa dos fatos, onde ele não comete erros, apenas as outras pessoas erram, e ele é a vítima, enquanto os outros são os culpados. Isto ocorre não apenas nos Chronicles, mas também no Wesker's Report, que também narra o ponto de vista de Albert Wesker dos acontecimentos da série. Todo arquivo tem o ponto de vista do seu narrador ou autor, e a visão geralmente é tendenciosa para o lado de quem o compõe ou de quem o narra. Algumas vezes, o narrador distorce os fatos ou até mente, modificando as informações de acordo com o que lhe é mais vantajoso. Isto pode se aplicar em Umbrella Chronicles no que diz respeito à omissão do personagem Barry Burton. Todos os fãs sabem que Barry é usado por Wesker para atingir seus objetivos no primeiro Resident Evil. Já na narração do episódio, ele omite Barry e sua ajuda, de modo que, em sua versão tendenciosa dos fatos, ele tenha realizado tudo o que estava planejado sem ajuda de ninguém, sozinho, o que o enaltece diante de quem ouve a história.

A maior reclamação por parte dos fãs em Umbrella Chronicles corresponde com o capítulo de Resident Evil 3, que praticamente resume a quase nada os acontecimentos com Jill Valentine e Carlos Oliveira em meio ao caos de Raccoon. Porém, se formos analisar seguindo os argumentos propostos neste texto, o pecado não foi tão grave quanto o colocamos. Coloquemos os elementos principais: tempo, espaço, mocinhos e inimigo. Temos o tempo, 28 de Setembro de 1998, mais uma vez, um episódio de cinco anos atrás, já que o Umbrella Chronicles é possivelmente narrado em 2003 ou até mesmo depois disto. Temos o espaço em que ocorre, as ruas da cidade de Raccoon, infestadas por zumbis. E temos os personagens que participam ativamente da história, Jill e Carlos. Albert Wesker, o narrador, mais uma vez não participa dos eventos. Tudo o que ele sabe a respeito do que aconteceu com os personagens foi por aquisição de relatórios e dados coletados pelos supervisores da UBCS, por Ada Wong, que estava na cidade a serviço de Wesker, por seus informantes, como o rapaz morto no Apple Inn, e como falamos de Resident Evil 0, possivelmente por câmeras de vigilância que estariam nos locais por onde os personagens poderiam ter passado. Ao usarmos o termo "poderiam", apresentamos a possibilidade, mas não a certeza de que passaram por tais locais. Como ter certeza se o narrador não estava presente? Usando a lógica, ele resume os fatos da forma como lhe parece mais adequado, utilizando, também, a capacidade de ser tendencioso, podendo, por exemplo, colocar o vilão Nemesis como um humanóide muito mais difícil de se destruir do que ele realmente é, enaltecendo o monstro e diminuindo as qualidades dos protagonistas, que se opõem a ele no universo de Resident Evil. Mais uma vez, lugares e pessoas foram omitidos e deixados de lado, mas é preciso lembrar que não passa de um breve resumo de fatos dos quais ele não foi uma testemunha ocular.

Os capítulos mais completos que temos em Umbrella Chronicles, portanto, são os dos quais Wesker participa ativamente, em especial os mais recentes, como o do complexo na região do Cáucaso, na Rússia, em que Wesker enfrenta Sergei e seus guarda-costas. Ainda assim, é preciso encarar todo e qualquer evento narrado com olhos de desconfiança, pois além de serem lembranças sujeitas a alterações do tempo, podem ter passado por uma revisão do que deve ou não ser contado, e como deve ser contado. De qualquer forma, são as únicas informações a que se tem acesso, e, por isto, são consideradas a versão oficial dos fatos, até que um futuro jogo prove o contrário ou lance um segundo ponto de vista para efeito comparativo.

Passemos agora ao segundo título da série, The Darkside Chronicles, que diferente do primeiro, narrado pela visão do vilão, este é contado pela visão do típico mocinho, o agente americano Leon S. Kennedy. Temos lembranças de 1998 a 2002, ou seja, um espaço de tempo de quatro anos, tendo sido ainda recontadas depois de 2002, e não necessariamente neste mesmo ano. A narração do jogo tem início no ano de 2002, quando ele abre sua história nos eventos que ocorreram na América do Sul. O foco principal de Darkside Chronicles é este episódio inédito, e ele se utiliza dos outros dois capítulos para explicar elementos do que ocorrera em 2002. O narrador, Leon, chega a um determinado ponto em que é preciso interromper a narração sobre a Operação Javier para poder explicar como ele chegou lá, e é neste momento que ele reconta os eventos de Resident Evil 2.

Temos, então, o tempo em que ocorreram, no dia 29 de Setembro de 1998, o espaço em que ocorreram, a chegada de Leon e Claire numa Raccoon tomada por zumbis, e como se desenrolaram, apontando outras testemunhas que participaram do acontecimento, como Ada Wong, Sherry Birkin, Marvin Branagh etc. Começando pela chegada dos dois jovens na cidade, eles já encontram Robert Kendo, o dono da loja de armas, morto no chão, o que não ocorre em Resident Evil 2, já que há um diálogo com Kendo na história original. A desculpa que se pode usar é a de que Leon não se lembra de como foi este diálogo e quer pular logo para o que ocorreu com Kendo, que acabou sendo devorado por zumbis. É muito importante sempre se lembrar da passagem de tempo de quando ocorreram os eventos e de quando eles estão sendo contados, não há como ser 100% fiel em lembranças, e assim como um Umbrella Chronicles, o narrador não tem qualquer obrigação de recontar cada detalhe de Resident Evil 2 conforme aconteceram. Note também que, apesar de não ser fiel com alguns personagens, como Marvin Branagh e Ben Bertolucci, o primeiro estando ferido no Hall de entrada, quando na verdade estava trancado num escritório, e o segundo já aparecendo morto na história e tendo deixado apenas um recado na parede da cela onde estava, Leon não omitiu ninguém. Diferente do narrador Albert Wesker, a visão de Leon dos fatos é menos tendenciosa, mostrando que todas as pessoas que encontrou pelo caminho foram, de alguma forma, memoráveis. Porém, visão menos tendenciosa não quer dizer ausência de tal visão, e muitos fãs reclamaram que Claire não pára de gritar durante o jogo, e que Leon toma as rédeas o tempo todo. Como é o lado dele da história a que temos acesso, é mais do que natural que ele a reconte como sendo o grande salvador de todas as vítimas, o bravo policial que, em seu primeiro e único dia em Raccoon, cumpriu bem a sua missão e tem a consciência tranquila de que fez tudo o que podia para ajudar as pessoas envolvidas.

Terminada a narração dos eventos de Resident Evil 2, o narrador Leon volta às memórias de Operação Javier, até chegar ao ponto de, mais uma vez, precisar interromper para explicar a origem do vírus T-Veronica. Porém, desta vez, os acontecimentos do capítulo referentes a CODE: Veronica não tiveram Leon como uma testemunha ocular, e ele provavelmente reconta o que Chris e Claire, os participantes destes eventos, contaram a ele. Neste caso, Leon tem acesso às informações por meio da narração dos irmãos Redfield, que não precisam necessariamente também se lembrar de tudo o que ocorreu no episódio. Neste caso, a narração está ainda mais deturpada: possivelmente, tomados pelo medo e a adrenalina de tudo o que ocorreu naqueles dias, Chris e Claire já tenham apresentado uma versão resumida dos fatos a Leon, que precisa forçar sua memória a se lembrar de eventos a que teve acesso através da lembrança de outras pessoas. O resultado disto é uma visão resumida e até mesmo errada dos fatos, como por exemplo, de acordo com Leon, o fato de Alexia Ashford ter matado seu irmão Alfred por achar que ele fora um inútil para ela, o que sabemos que não ocorreu em CODE: Veronica. Leon não estava lá para saber o que realmente aconteceu, e a razão da morte de Alfred pode até mesmo ter sido omitida por Chris e Claire ao recontarem a história, portanto, Leon poderia muito bem ter criado aquilo inconscientemente, seguindo a lógica da personalidade de Alexia, que acreditava que todos deveriam servir a ela.

Ao fim do resumo dos eventos envolvendo a família Ashford e a origem do T-Veronica, o narrador volta ao ponto de onde parou em Operação Javier e termina de contar a história de acordo com o seu ponto de vista, porém, temos um revés surpreendente, e o título do jogo mostra a sua razão de existir: terminando de ouvir a história de Leon, temos acesso à visão de Jack Krauser dos fatos, seu parceiro na missão, uma visão muito mais parecida com a de Albert Wesker e muito mais distante do bom policial Leon. Temos agora acesso aos seus pensamentos, não estamos mais em uma narração e, sim, dentro da mente do personagem, que muitas vezes pára de ouvir o que seu parceiro está falando para se ocupar com suas próprias opiniões internas. Esta foi uma jogada genial dos criadores do jogo, pois a visão de Krauser não foi deturpada, e é a visão mais concreta e humana a que temos acesso desde Umbrella Chronicles, uma verdadeira recompensa a quem ouve toda a história do policial bonzinho, para depois ouvirmos pensamentos e opiniões sinceras de uma segunda testemunha dos fatos.

O que incomoda muitos fãs da série em relação aos títulos Chronicles é que os personagens, que outrora andavam sozinhos pelos títulos originais, agora andam juntos, mas é preciso ter em mente que, além de serem lembranças de um narrador, ainda são uma tentativa de resumir em uma parte só o que aconteceu com duas pessoas, até porque o narrador não tem a obrigação de saber que um personagem botou fogo na lareira para pegar a jóia e o outro pegou a outra jóia em uma estátua. Ele resume, então, os eventos como tendo sido feitos pelos dois juntos. Além disto, no caso de Leon, em Resident Evil 2, ele não estando com Claire, ele provavelmente teve acesso às experiências dela através do que ela contara. Isto significa que, assim como em CODE: Veronica, ele está tendo acesso a uma narração, e depois precisará narrar o que ouviu de outra pessoa, sendo assim, não precisa ser fiel a eventos que não se passaram com ele. Neste caso, talvez fosse melhor resumir a história com os dois andando juntos e vivenciando toda aquela horrível experiência juntos, pois o que um sentiu e viveu, de alguma forma, o outro também presenciou, e o medo de um é o medo do outro. A experiência compartilhada é o que realmente conta, independente de quem fez o quê. No final das contas, ambos sobreviveram para contar a história, por mais que não possam recontá-la de forma tão fiel.